“Você não sabe falar alemão.”

Aprender a língua é uma das primeiras coisas que fazemos quando queremos mudar de país. O conhecimento nos permite ser independentes, aprender sobre a cultura local e é uma das bases da comunicação, sendo a fala a principal ferramenta de comunicação humana: reza a lenda que apenas os animais humanos falam.

Mas é também a língua uma das ferramentas mais utilizadas para oprimir e ofender o estrangeiro. Quando decidi fazer um curso de escrita e desafiei-me a tentar escrever de forma um pouco mais “complexa e poética”, ouvi de algumas pessoas que era muito cedo,  que eu no ia conseguir já que eu não tinha um “bom alemão” para isso. “Mas Nádia, a gente nunca vai ter um bom alemão na perspectiva deles.” Disse minha terapeuta que mora aqui há 30 anos. “Eu nunca vou ter um alemão bom e estou perdendo meu português” disse uma outra advogada com mais de 25 anos morando e exercendo a profissão aqui, coisa que não foi e não é nada fácil.

É a língua, ou a falta do conhecimento sobre ela que é apontada como forma de “nos colocar no devido lugar” como estrangeiros. Quando somos recém-chegados aceitamos  tudo que nos dizem, afinal de contas não entendemos muito e só queremos resolver a nossa situação; seja ela o visto de permanência, a matrícula na universidade ou uma consulta médica. Conforme o tempo vai passando e começamos a prender certas coisas, é normal que o instinto de questionar e esclarecer-se vai surgindo; primeiro porque somos curiosos, segundo porque não queremos passar por inocentes assinando algo errado ou até mesmo pagando taxas extras.

Quando passamos da fase do “acena e balança a cabeça” as coisas começam a ficar complicadas – especialmente nos ambientes institucionais.  É ai então que ouvimos o quanto não sabemos ou não entendemos alemão( embora nos 20 minutos anteriores houve uma conversa, uma série de perguntas e respostas lógicas).  É curioso que eles podem nos ofender com o nosso não conhecimento da língua, mas não podemos dizer que não entendemos os “dialetos regionais”, porque isso é nossa! Muito desrespeitoso!

Há casos que questionar nossos conhecimentos da língua é tão nonsense, que eles apelam para as coisas mais improváveis de errar. Certa vez, reclamando que a administração havia escrito meu nome errado e argumentando que, por conta disso não iria pagar a correção, já que o erro não foi meu, questionaram se eu tinha certeza que tinha escrito meu nome corretamente. Será que nem sei mais escrever meu nome?

Por meio da língua muitos maridos humilham suas companheiras. Muitos afirmam o quanto as companheiras “são burras e jamais aprenderão o alemão”, ou como são tão “ninguém” que não conseguem sequer aprender uma outra língua. Essa é uma forma de abuso psicológico que afeta não só o aprendizado da linguagem, bem como todo o processo de inserção e integração social na nova cultura.

Especialmente aqui na Alemanha onde tem-se a prática comum de associar a língua com a integração, seria necessário rever as formas como a sociedade lida com aqueles que se esforçam tanto. Ou é justamente por ser tão importante que a língua seja a primeira a ser usada para separar o “eu” e os “outros”, colocando o “outro” numa posição inferior e menosprezada.

Não devemos esquecer que a fala é sempre um ato político. É por isso que surgem os “@”, os “x” e as “aspas”, como alternativas à um sistema repressor e excludente. É por isso que só a tentativa em falar, e o falar por si só – seja ele errado ou não, culto ou informal – incomoda aqueles que sentem-se ameaçados com o poder dos “outros”.

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