germinar

 

Vontade de escrever. Despejar o mundo de desejos e perguntas que desembocam nesse oceano físico chamado corpo. Passada a euforia do desejo, a pergunta concreta sobre o quê escrever não acha resposta alguma. Resta a opção de escrever sobre esse turbilhão que não tem nome ainda, mas que vem de coisas que essas sim, já podem ser identificadas. Se no Brasil dizemos que o ano só começa depois do carnaval, eu diria que aqui na Alemanha começa depois da páscoa, pelo menos o ano acadêmico. Com ele despontam as primeiras mudas, os galhos flexíveis exibindo suas cabeleiras verdes, novas, sedosas e toda-se-querendo para o próximo verão. Aparecem as primeiras abelhas e vespas e fico esperando os primeiros rabinhos brancos dos coelhos saltitantes atravessando o campinho. Época de novos paladares culinários, novas receitas, temperos e combinações. Os vestidos começam a sair dos armários, a troca por sapatos mais leves é feita. Junto com a universidade as novas responsabilidades. Nesse semestre estou, junto com outra colega, dando aula – em alemão – o que está sendo uma oportunidade para atravessar inseguranças e expectativas tóxicas exageradas. Alias, o lado profissional tem dado um gás bem gostoso nesses últimos meses. Incrível como todas as mudanças transforma-se em um terreno fértil, mas nem sempre agradável, para conhecer e lidar com as sombras. Algumas vezes esse processo é feito de forma amigável mas outras leva tempo até deixar de arrancar lágrimas do meu coração. Os últimos anos tem sido de intensas mudanças, acontecimentos, de muitas explorações e descobertas, mas por algum motivo sinto sinais de que muito ainda vai abalar o nosso querido ano de 2017 na minha vida. Mas, das poucas coisas que sei e sinto, é que é tempo de sair, expressar-me,  dar voz e ação à essa mulher “intelectualizada”, que muitas vezes pensa mas não fala – só escreve, muito escreve mas pouco lê, cozinha mas nem sempre prova. Abrir a porta e ver o que tem do lado de fora. De mim, da vida, os outros, da realidade.

tufão

Podia ser mais uma tarde qualquer. Podia ser  mais uma corriqueira brisa entrando pela porta da cafeteria que abria anunciado novos clientes. Mas não dessa vez. Com ela, entrou um tufão de emoção. Uma emoção tão carregada de clichês… Jeans, camisa branca, all star. Para além das causualidades, tatuagem e cabelos quase por beijar os ombros. Os olhos claros como um poço. Não eram claros de cor, mas claro de transparência da alma.

A empatia e o ato político

Desde que tive conhecimento do projeto carlotas tenho pensado e pesquisado bastante sobre o tema empatia. Antes de mais nada preciso dizer que devido a minha formação – sou historiadora e antropóloga – não acredito em um determinismo biológico, mas sim na ideia e na prática de que tudo nos é culturalmente – e socialmente – construído, inclusive a nossa ideia sobre o que é biológico.

Apesar de erroneamente ter-se afirmado que possuímos estruturas biológicas, ou melhor dizendo neurológicas – os chamados neurônios espelhos -, que nos conferem a empatia, nada até o momento foi comprovado cientificamente. O que descobriu-se é que em nosso cérebro possuímos sistemas responsáveis pela imitação de ações externas que presenciamos, sejam elas boas ou negativas, e esse vídeo que circulou durante muito tempo nas redes sociais é um bom exemplo sobre isso – sejam pais e crianças ou não.

Pois bem, ainda que tenhamos em nosso aparato biológico estruturas que nos conduzam a uma imitação, seja ela boa ou ruim, e aqui vou falar apenas da boa, já que esse é um texto sobre empatia, existe toda uma construção cultural que controla e forja essa estrutura biológica. Ainda que daqui há alguns anos provem cientificamente que a empatia é um mecanismo biológico, não seria todo mundo que a praticaria. E por quê? Porque condicionamos nosso biológico ao ambiente cultural.

Esse deve ser, creio eu, um dos motivos pelos quais ficamos confusos quando pensamos na prática da empatia. Por que a senhora religiosa boazinha que dá dinheiro às campanhas humanitárias da sua comunidade vira a cara ao transeunte que pede dinheiro para comprar comida? Como o jovem empresário envia doações as pobres crianças na África, mas acha que programas sociais brasileiros são máquinas de preguiçosos? Porque a nossa ideia de sermos empáticos, de ajudar o próximo, de colocarmos no lugar do outro – alteridade – e de tentar experienciar o sofrimento alheio, é culturalmente construída.

É por isso, como dito no início do texto, que não acredito no determinismo biológico, e sim nas intervenções positivas vindas de uma reflexão política. E essa reflexão, em tempos em que a emoção e o sentir tornaram-se mais importantes que o pensar, haja vista que a palavra “pós fato” ou “pós verdade” foi escolhida como a palavra de 2016, é de extrema importância.

“relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”.

Ao encarar e praticar a empatia como uma ato político – e em muitos caso como de resistência – eu consigo deixar de lado a “minha emoção e a minha avaliação” sobre quem “merece” ou não meu braço empático e estendo-o a todo aquele  acometido por alguma necessidade; física, biológica, emocional.

Encarar a empatia como uma atitude consciente me abre à aceitação, a não julgar, justamente porque a “minha emoção” não importa na vida do outro, no caminho, decisões e dificuldades alheias. Aqui só interessa meu sincero “Posso ajudar? De que forma?”.

Você pode dizer: Ah! Mas o importante é ajudar, então tudo bem se a tia faz a parte dela na igreja. Talvez você me chame de radical, mas sinceramente não acho que isso é ajuda. Ok, pode ser que a pessoa esteja se ajudando, querendo acreditar em alguma benevolência pessoal, mas eu chamo isso de hipocrisia. Condicionar nossas emoções e valores a ajuda não se configura como empatia – nem gosto de usar o termo empatia genuína, porque empatia falsa não rola, né?

É essa empatia, enquanto ato político, que faz com que eu, mesmo não sendo uma mulher negra em situação de risco, mas reconhecendo o meu privilégio enquanto uma mulher negra de classe média, move-me a fazer algo para que ela se sinta amparada.

E por último, a empatia consciente mostra-me o quão difícil essa prática é, em nosso cotidiano hipócrita e egoísta. Tira-me do mundo rosa de que “somos todos irmãos” e me faz encarar a dura realidade que é ter meus olhos, ouvidos e abraços fechados ao próximo, ao diferente, ao outro. E é justamente por ter essa consciência que eu me impulsiono a pratica-lá.

Enquanto pesquisava ferramentas para escrever esse texto, deparei-e com essa série e meu coração encheu-se de alegria. Não sou a única a encarar a empatia como algo político. Não sou a única que, ainda que seja doloroso, tento sair de mim e olhar do outro lado da rua. A tentativa não me faz mais nobre, mas me faz agir. E reconhecer esse movimento, essa dificuldade em alguns momentos e a prática em outros, é ser empática comigo mesma.

A suave indelicadeza de dentro

Na orelha das outras mulheres sempre via pequenos e médios brincos. Na maioria das vezes eram prateados ou dourados. Alguns de ouro mas a maioria sustentando uma boa prata. Não podemos ser rico, mas nada impede que mostremos que somos.

Esse não eram os brincos que Dandara queria usar, embora usasse-os para “se arrumar”. Influenciada pela mãe, escolhia os brincos pequenos, delicados e não pesados. Mas os brincos pequenos e delicados não combinavam com o “de dentro” de Dandara. Até então não tinha encontrado algo que combinasse com sua leveza indelicada.

Com o tempo, Dandara mudou de escolhas. Conheceu outras mulheres e outros brincos. Certo dia, viu na orelha de uma amiga um brinco que assemelhava-se a uma dessas cortinas antigas que, ao dançar com o vento revelava um outro espectro de cores.

– Que brinco lindo! Onde você comprou?
– Em coco.
– O brinco é feito de coco?
– Não… eu comprei em coco.
– Ah! Isso é uma loja?
– É. Fica ali no Mercado de Artesanato.
– Não sabia que tinha um mercado ali. Não é perigoso ir lá?
– Não. É logo ali na Praça da Catedral, a última barraca.

No final de semana seguinte Dandara saiu com a sua mãe para ver a tal barraca. Passando o olho sobre os adornos parou sobre um preto. Ao dizer que queria levar aquele, sua mãe interviu: “Não é muito grande? Deve ser pesado!”

Dandara tirou seus delicados brincos e trocou pelos novos. Virou o rosto de um lado a outro na frente do espelho e disse que não pesava. Sua mãe continuou: “É muito grande. Você vai usar isso? Pra quê comprar uma coisa que você não vai usar depois?”

Ela então, conteve-se nos seus pensamentos: e se eu não for usar?mas é tão bonito! sempre quis usar um brinco grande. se eu não levar, nunca usar, como vou saber se é para mim ou não? às vezes é preciso experienciar para saber.

Colocou o outro brinco e decidiu que o levaria apesar de seus medos, inseguranças e dos avisos maternos. Lá no fundo Dandara sentia que tinha achado algo que parecia com a sua suave indelicadeza.

Ginecología Natural

Muitas vezes me perco e nem lembro mais como conheci tal pessoa ou soube de tal livro. Foi exatamente isso que ocorreu com o Manual Introductorio a la Ginecología Natural da Pabla Pérez San Martín. O importante é que, de alguma forma, soube do livro e resolvi comprar. Esperei ansiosa pelo livro e assim que o tive nas mãos comecei a folhear. Hoje acabei de ler e não tem como não se apaixonar por ele. Vou elencar por pontos o que tanto gostei:

  • As ilustrações de cada capítulo são muito bonitas, cheias de sensibilidade e esmero.
  • Apesar de ser um manual introdutório, é um livro bastante completo: entende o corpo como algo político e biológico, mas também como algo cultural e energético. Descreve o quanto é importante uma alimentação saudável, mas também um ambiente saudável para uma ginecologia sã e respeitada.
  • Fala dos ciclos, dos hormônios, a fertilidade, as infecções, câncer, aborto e explica muito bem de que forma o ritmo de vida industrializado, patriarcal e capitalista em que nós vivemos influencia nos processos femininos.
  • Problematiza a relacão mãe-filha levando-nos a uma reflexão sobre como essas relações são moldadas por preceitos patriarcais.
  • Apresenta as ervas, óleos e plantas medicinais como uma alternativa menos invasivas a cura
  • Sabe que cada mulher e cada corpo são únicos, nos convidando a observar e conhecer-los com base na nossa história familiar, cultural e pessoal.
  • Apresenta várias referências e fontes dos dados que mostra. 

Em cada página, texto, capítulo fui sendo inundada de amor, empatia, conhecimento, força e sabedoria. Fico feliz que o livro tenha saído do forno por meio de um financiamento coletivo e a história da Pabla, costurando os assuntos abordados é também uma doce parte da obra em si. Como disse a pouco para minha irmã, esse livro com certeza estará ao lado da minha vassoura 🙂

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