A irmandade é um par de asas

As salas de aula com cadeiras enfileiradas nunca foram atrativas para Dandara. Na verdade, essa formação militar causava-lhe medo. Já as atividades em círculo aliviavam seu coração. Em círculo ela via suas companheiras, tinha certeza que não estava sola e alegrava-se com a falta de hierarquia espacial.

De certa forma, a ciranda que não lhe deixava sentir-se sozinha, era a representação de sua própria irmã. Dandara tinha dificuldade em fazer novos amigos e, se não fosse sua irmã, estaria sentido-se sozinha até hoje.

Era a irmã que ouvia suas confidências e os mais engraçados causos. No círculo da irmandade havia confiança e respeito. Uma pensando e amando a outra.

Certo dia, andando pelas lojas de um aeroporto qualquer, a irmã de Dandara passou a olhar as jóias das vitrines como se buscasse algo sem saber o quê, até que seus olhos encontraram um par de borboletas. “Dandara vai adorar eses brincos!” Além disso, a irmã de Dandara não pode evitar aquelas borboletas, sua grande paixão, desde a infância. Talvez ao presentear Dandara estivesse a presentear a si mesma. Exatamente como num círculo sem começo e fim em que o eu confunde-se com a outra.

No reencontro Dandara recebeu aquele brinco como muito amor. Podia ver o amor da relação das duas cristalizada naqueles minerais. Ostentou os delicados brincos nas orelhas. Olhou para a irmã abraçando-a com um sorriso iluminador. Naquele momento as duas souberam que presentear uma irmã com asas é conferir a si mesma a liberdade de viver.

A suave indelicadeza de dentro

Na orelha das outras mulheres sempre via pequenos e médios brincos. Na maioria das vezes eram prateados ou dourados. Alguns de ouro mas a maioria sustentando uma boa prata. Não podemos ser rico, mas nada impede que mostremos que somos.

Esse não eram os brincos que Dandara queria usar, embora usasse-os para “se arrumar”. Influenciada pela mãe, escolhia os brincos pequenos, delicados e não pesados. Mas os brincos pequenos e delicados não combinavam com o “de dentro” de Dandara. Até então não tinha encontrado algo que combinasse com sua leveza indelicada.

Com o tempo, Dandara mudou de escolhas. Conheceu outras mulheres e outros brincos. Certo dia, viu na orelha de uma amiga um brinco que assemelhava-se a uma dessas cortinas antigas que, ao dançar com o vento revelava um outro espectro de cores.

– Que brinco lindo! Onde você comprou?
– Em coco.
– O brinco é feito de coco?
– Não… eu comprei em coco.
– Ah! Isso é uma loja?
– É. Fica ali no Mercado de Artesanato.
– Não sabia que tinha um mercado ali. Não é perigoso ir lá?
– Não. É logo ali na Praça da Catedral, a última barraca.

No final de semana seguinte Dandara saiu com a sua mãe para ver a tal barraca. Passando o olho sobre os adornos parou sobre um preto. Ao dizer que queria levar aquele, sua mãe interviu: “Não é muito grande? Deve ser pesado!”

Dandara tirou seus delicados brincos e trocou pelos novos. Virou o rosto de um lado a outro na frente do espelho e disse que não pesava. Sua mãe continuou: “É muito grande. Você vai usar isso? Pra quê comprar uma coisa que você não vai usar depois?”

Ela então, conteve-se nos seus pensamentos: e se eu não for usar?mas é tão bonito! sempre quis usar um brinco grande. se eu não levar, nunca usar, como vou saber se é para mim ou não? às vezes é preciso experienciar para saber.

Colocou o outro brinco e decidiu que o levaria apesar de seus medos, inseguranças e dos avisos maternos. Lá no fundo Dandara sentia que tinha achado algo que parecia com a sua suave indelicadeza.

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