Frustrações e uma máquina de costura.

Dias desses estava fazendo skype com minha mãe e então minha sobrinha mais nova começou a chorar porque queria algo que não teve. Minha mãe perguntou porque ela estava chorando e disse que era de frustração. Minha mãe sorriu e comentou: Ela ainda não sabe lidar com a frustração. Sorri de volta e perguntei: “Por que, a senhora sabe? Eu tenho 31 anos e ainda não aprendi como lidar.”

Realmente o ser humano tem dificuldade em lidar com as frustrações; seja pequenas coisas como perder um ônibus ou não conseguir a promoção em um emprego. Não importa a idade, o sexo nem a situação econômica, todos nós passamos por dias e momentos em que sabemos, ou não, lidar com esse pequeno elefante no meio da sala.

Hoje, aqui, quero falar das minhas frustrações com as roupas. Já falei em vários textos sobre a minha dificuldade em comprar roupas aqui na Alemanha. Não apenas pela questão de ter um “corpo” que difere do “padrão europeu/alemão”, mas também por vestir além do 42. Aqui as lojas mais populares ou de departamento vendem calças, por exemplo, até a numeração alemã 44, pouquíssimas até o 46. Já as lojas específicas com números grandes só vendem a partir do 48 – algumas do 46, fazendo com que eu fique no limbo e por quase três anos ainda não achei uma calça que me sirva. Sem falar das calças, o que acho são peças que funcionam na cintura, mas apertam nos ombros ou ficam bom nos ombros e meio metro de manga sobrando.

Cada vez que comprava uma roupa ficava triste, frustrada. Como meu pai trabalhou a vida toda como alfaiate e minha mãe começou a costurar na minha infância, sempre ouvia deles o quanto o caimento das roupas era importante e isso aumentava ainda mais minhas críticas com as roupas que eu experimentava. O resultado disso tudo é que eu já nem queria sair para comprar roupas que eu precisava, tinha uma má vontade enorme para provar as peças e ficava meses vivendo com as poucas peças que achava e que muitas vezes nem gostava; comprava só porque cabia.

Um dia, no meio de uma prova, reclamando e não sabendo lidar com a frustração mais uma vez, eu me dei conta que essa situação nunca mudaria. Continuar reclamando de como as lojas eram “preconceituosas” e pensavam só nesses padrões que quase ninguém cabia, não iria fazer com que as roupas funcionassem para mim. Caiu a ficha de que o bom caimento só existe nas roupas feitas por encomenda, e esse não era o caso. Era preciso tomar uma decisão e comecei a aceitar que as roupas perfeitas não são instantâneas. Considerei fazer consertos, mas aqui a mão de obra da maioria dos serviços é cara e contabilizando o valor que iria pagar pelos consertos que necessitava, era quase o mesmo valor que adquirir uma máquina de costura. Usei a frustração e a transformei em uma energia criadora. Comprei minha máquina de costura.

E, numa dessas ocasiões em que o trem é cancelado, fui dar uma voltinha na livraria da estação de trem e passei alguns minutos olhando as revistas de corte e costura. Das quatro revistas ali postas todas elas tinham seus moldes a partir do 44. Não era só eu Nádia que tinha problema com as roupas. E olhando essas revistas, fiquei me perguntando se somente as mulheres gordas que costuram para si mesmas, a ponto das revistas, que não eram especializadas para o público plus size, apresentassem moldes apenas de números grandes…

Talvez seja isso.. nem sempre sabemos lidar com as frustrações, mas as vezes fazemos dela nosso instrumento de rebeldia e revolução: costurando e criando roupas que cabem nos nossos corpos, em vez de oprimir nossos corpos para que eles caibam nas roupas.

Deus

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Sei que deus não tem “sexo”, mas me deem o crédito da liberdade poética.

 

Quando nasci, depois de certo tempo, fui apresentada à Igreja. Esse é um ritual muito comum nas igrejas evangélicas. Minha família materna frequentava a Igreja Batista, mas lembro-me de ter ido algumas vezes na Congregação Cristã do Brasil quando era pequena e ainda morava em São Paulo. Quando nos mudamos para a Bahia aí sim íamos – eu, minha mãe e minha irmã, regularmente aos cultos da Igreja Batista perto da casa da minha vó. Para encurtar a conversa até meus 25 anos, quando fui morar em Florianópolis eu tinha uma vida bem ativa na comunidade religiosa que fazia parte.

Muitos dizem que a entrada na Universidade, principalmente nas ciências humanas ou sociais, faz com que muitos cristãos duvidem da sua própria fé. Não concordo com isso. Existem tantos religiosos formados em filosofia, por exemplo. E eu mesma, enquanto cursei história na graduação não sentia minha fé cristã “abalada”. Foi o convívio com mulheres que fez isso.

Quando mudei-me pra Floripa foi a oportunidade em que mais estive perto de mulheres: tinha mais amigas que amigos, “descobri” o mundo feminista e suas discussões, sentia-me mais segura em compartilhar minhas dores e foi onde a minha esperança por um mundo melhor brotou e floresceu. Isso tudo, somado com a dificuldade em achar uma comunidade religiosa em que me sentisse acolhida, fizeram com que minha atividade na “igreja” fosse zero.

Mesmo na época assídua aos cultos eu nunca me preocupava tanto sobre saber se deus existia ou não. Quando sai da igreja também não ficava pensando nisso. A minha crença na existência dele ou não, não interfere caso ele exista ou não. Mas também não perdi minha espiritualidade. Sempre fui muito ligada a natureza, sua força e presença. Além disso, com tantas religiões é impossível dizer que não existe religiosidade nesse plano. Ademais a aproximação do universo feminino me fez ler sobre o sagrado feminino e as deusas.

As deusas, como símbolo de divindades, me são aconchegantes. Sinto-me bem, querida por elas. E percebi que dos últimos tempos para cá quando alguém me diz “vai com Deus”, “Deus te abençoe”, isso soa muito estranho pra mim. Deus, essa figura masculina, tornou-se algo totalmente “ameaçador” para mim.

Influenciada pela cultura e pela nossa sociedade, sempre esteve presente no meu imaginário um deus que castiga, uma pai que não é nada amoroso que espera nossas falhas para punir e quando fazemos algo de certo, o mérito é todo dele. Esse ideal de masculino “sem emoção” é propagado de forma geral na nossa sociedade. Os pais são sinônimo de poder e dinheiro. São os pais que castigam, que avaliam o sucesso dos filhos e filhas na escola. Não podem demonstrar suas emoções já que homem que é homem não chora. Homem que é homem não abraça direito, não beija para demonstrar afeto e não diz “eu te amo”.

Já a mãe, ou melhor dizendo a mulher,  num oposto não saudável, é aquela que é emotiva, chorona, sentimental, que aceita e suporta tudo. É a mãe que dá o beijinho na ferida, que fica responsável por educar as crias e tomar conta da casa. Nenhum dos dois extremos é bom. Homens e mulheres, sendo pais e mães ou não, são seres humanos cheios de emoções.

Mas voltando para meu desconforto com Deus, fico pensando como “confiar” e conversar com alguém que de certa forma não me entende – mesmo os religiosos mais fervorosos dizendo que ele me entende sim – ? Que, no meu ponto de vista, não entende quando sofro assédio na rua ou quando não sou levada à sério no ambiente de trabalho só por causa do meu gênero.

Assim como o mundo, o tempo e as relações de trabalho estão cada vez mais masculinizantes, e o mesmo foi feito com a noção de deus. Deusas são pagãs. Deuses são sagrados. Não que eu me ache uma deusa – pelo menos não o tempo todo, rs – mas cada vez que uma deusa é associada a algo ruim só por ser feminino uma parte de mim também recebe essa exclusão. Da mesma forma quando vejo deus sendo exaltado e glorificado porque no fundo é uma figura masculina, eu não consigo fazer parte mais dessa ideia de espiritualidade.

Agora só porque é uma divindade masculina é ruim, Nádia? Não necessariamente. Mas essa ideia ocidental de um deus poderoso, pai – mas que não mostra seu lado “humano” não me traz mais paz.

 

 

“Você não sabe falar alemão.”

Aprender a língua é uma das primeiras coisas que fazemos quando queremos mudar de país. O conhecimento nos permite ser independentes, aprender sobre a cultura local e é uma das bases da comunicação, sendo a fala a principal ferramenta de comunicação humana: reza a lenda que apenas os animais humanos falam.

Mas é também a língua uma das ferramentas mais utilizadas para oprimir e ofender o estrangeiro. Quando decidi fazer um curso de escrita e desafiei-me a tentar escrever de forma um pouco mais “complexa e poética”, ouvi de algumas pessoas que era muito cedo,  que eu no ia conseguir já que eu não tinha um “bom alemão” para isso. “Mas Nádia, a gente nunca vai ter um bom alemão na perspectiva deles.” Disse minha terapeuta que mora aqui há 30 anos. “Eu nunca vou ter um alemão bom e estou perdendo meu português” disse uma outra advogada com mais de 25 anos morando e exercendo a profissão aqui, coisa que não foi e não é nada fácil.

É a língua, ou a falta do conhecimento sobre ela que é apontada como forma de “nos colocar no devido lugar” como estrangeiros. Quando somos recém-chegados aceitamos  tudo que nos dizem, afinal de contas não entendemos muito e só queremos resolver a nossa situação; seja ela o visto de permanência, a matrícula na universidade ou uma consulta médica. Conforme o tempo vai passando e começamos a prender certas coisas, é normal que o instinto de questionar e esclarecer-se vai surgindo; primeiro porque somos curiosos, segundo porque não queremos passar por inocentes assinando algo errado ou até mesmo pagando taxas extras.

Quando passamos da fase do “acena e balança a cabeça” as coisas começam a ficar complicadas – especialmente nos ambientes institucionais.  É ai então que ouvimos o quanto não sabemos ou não entendemos alemão( embora nos 20 minutos anteriores houve uma conversa, uma série de perguntas e respostas lógicas).  É curioso que eles podem nos ofender com o nosso não conhecimento da língua, mas não podemos dizer que não entendemos os “dialetos regionais”, porque isso é nossa! Muito desrespeitoso!

Há casos que questionar nossos conhecimentos da língua é tão nonsense, que eles apelam para as coisas mais improváveis de errar. Certa vez, reclamando que a administração havia escrito meu nome errado e argumentando que, por conta disso não iria pagar a correção, já que o erro não foi meu, questionaram se eu tinha certeza que tinha escrito meu nome corretamente. Será que nem sei mais escrever meu nome?

Por meio da língua muitos maridos humilham suas companheiras. Muitos afirmam o quanto as companheiras “são burras e jamais aprenderão o alemão”, ou como são tão “ninguém” que não conseguem sequer aprender uma outra língua. Essa é uma forma de abuso psicológico que afeta não só o aprendizado da linguagem, bem como todo o processo de inserção e integração social na nova cultura.

Especialmente aqui na Alemanha onde tem-se a prática comum de associar a língua com a integração, seria necessário rever as formas como a sociedade lida com aqueles que se esforçam tanto. Ou é justamente por ser tão importante que a língua seja a primeira a ser usada para separar o “eu” e os “outros”, colocando o “outro” numa posição inferior e menosprezada.

Não devemos esquecer que a fala é sempre um ato político. É por isso que surgem os “@”, os “x” e as “aspas”, como alternativas à um sistema repressor e excludente. É por isso que só a tentativa em falar, e o falar por si só – seja ele errado ou não, culto ou informal – incomoda aqueles que sentem-se ameaçados com o poder dos “outros”.

A irmandade é um par de asas

As salas de aula com cadeiras enfileiradas nunca foram atrativas para Dandara. Na verdade, essa formação militar causava-lhe medo. Já as atividades em círculo aliviavam seu coração. Em círculo ela via suas companheiras, tinha certeza que não estava sola e alegrava-se com a falta de hierarquia espacial.

De certa forma, a ciranda que não lhe deixava sentir-se sozinha, era a representação de sua própria irmã. Dandara tinha dificuldade em fazer novos amigos e, se não fosse sua irmã, estaria sentido-se sozinha até hoje.

Era a irmã que ouvia suas confidências e os mais engraçados causos. No círculo da irmandade havia confiança e respeito. Uma pensando e amando a outra.

Certo dia, andando pelas lojas de um aeroporto qualquer, a irmã de Dandara passou a olhar as jóias das vitrines como se buscasse algo sem saber o quê, até que seus olhos encontraram um par de borboletas. “Dandara vai adorar eses brincos!” Além disso, a irmã de Dandara não pode evitar aquelas borboletas, sua grande paixão, desde a infância. Talvez ao presentear Dandara estivesse a presentear a si mesma. Exatamente como num círculo sem começo e fim em que o eu confunde-se com a outra.

No reencontro Dandara recebeu aquele brinco como muito amor. Podia ver o amor da relação das duas cristalizada naqueles minerais. Ostentou os delicados brincos nas orelhas. Olhou para a irmã abraçando-a com um sorriso iluminador. Naquele momento as duas souberam que presentear uma irmã com asas é conferir a si mesma a liberdade de viver.

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