Deus

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Sei que deus não tem “sexo”, mas me deem o crédito da liberdade poética.

 

Quando nasci, depois de certo tempo, fui apresentada à Igreja. Esse é um ritual muito comum nas igrejas evangélicas. Minha família materna frequentava a Igreja Batista, mas lembro-me de ter ido algumas vezes na Congregação Cristã do Brasil quando era pequena e ainda morava em São Paulo. Quando nos mudamos para a Bahia aí sim íamos – eu, minha mãe e minha irmã, regularmente aos cultos da Igreja Batista perto da casa da minha vó. Para encurtar a conversa até meus 25 anos, quando fui morar em Florianópolis eu tinha uma vida bem ativa na comunidade religiosa que fazia parte.

Muitos dizem que a entrada na Universidade, principalmente nas ciências humanas ou sociais, faz com que muitos cristãos duvidem da sua própria fé. Não concordo com isso. Existem tantos religiosos formados em filosofia, por exemplo. E eu mesma, enquanto cursei história na graduação não sentia minha fé cristã “abalada”. Foi o convívio com mulheres que fez isso.

Quando mudei-me pra Floripa foi a oportunidade em que mais estive perto de mulheres: tinha mais amigas que amigos, “descobri” o mundo feminista e suas discussões, sentia-me mais segura em compartilhar minhas dores e foi onde a minha esperança por um mundo melhor brotou e floresceu. Isso tudo, somado com a dificuldade em achar uma comunidade religiosa em que me sentisse acolhida, fizeram com que minha atividade na “igreja” fosse zero.

Mesmo na época assídua aos cultos eu nunca me preocupava tanto sobre saber se deus existia ou não. Quando sai da igreja também não ficava pensando nisso. A minha crença na existência dele ou não, não interfere caso ele exista ou não. Mas também não perdi minha espiritualidade. Sempre fui muito ligada a natureza, sua força e presença. Além disso, com tantas religiões é impossível dizer que não existe religiosidade nesse plano. Ademais a aproximação do universo feminino me fez ler sobre o sagrado feminino e as deusas.

As deusas, como símbolo de divindades, me são aconchegantes. Sinto-me bem, querida por elas. E percebi que dos últimos tempos para cá quando alguém me diz “vai com Deus”, “Deus te abençoe”, isso soa muito estranho pra mim. Deus, essa figura masculina, tornou-se algo totalmente “ameaçador” para mim.

Influenciada pela cultura e pela nossa sociedade, sempre esteve presente no meu imaginário um deus que castiga, uma pai que não é nada amoroso que espera nossas falhas para punir e quando fazemos algo de certo, o mérito é todo dele. Esse ideal de masculino “sem emoção” é propagado de forma geral na nossa sociedade. Os pais são sinônimo de poder e dinheiro. São os pais que castigam, que avaliam o sucesso dos filhos e filhas na escola. Não podem demonstrar suas emoções já que homem que é homem não chora. Homem que é homem não abraça direito, não beija para demonstrar afeto e não diz “eu te amo”.

Já a mãe, ou melhor dizendo a mulher,  num oposto não saudável, é aquela que é emotiva, chorona, sentimental, que aceita e suporta tudo. É a mãe que dá o beijinho na ferida, que fica responsável por educar as crias e tomar conta da casa. Nenhum dos dois extremos é bom. Homens e mulheres, sendo pais e mães ou não, são seres humanos cheios de emoções.

Mas voltando para meu desconforto com Deus, fico pensando como “confiar” e conversar com alguém que de certa forma não me entende – mesmo os religiosos mais fervorosos dizendo que ele me entende sim – ? Que, no meu ponto de vista, não entende quando sofro assédio na rua ou quando não sou levada à sério no ambiente de trabalho só por causa do meu gênero.

Assim como o mundo, o tempo e as relações de trabalho estão cada vez mais masculinizantes, e o mesmo foi feito com a noção de deus. Deusas são pagãs. Deuses são sagrados. Não que eu me ache uma deusa – pelo menos não o tempo todo, rs – mas cada vez que uma deusa é associada a algo ruim só por ser feminino uma parte de mim também recebe essa exclusão. Da mesma forma quando vejo deus sendo exaltado e glorificado porque no fundo é uma figura masculina, eu não consigo fazer parte mais dessa ideia de espiritualidade.

Agora só porque é uma divindade masculina é ruim, Nádia? Não necessariamente. Mas essa ideia ocidental de um deus poderoso, pai – mas que não mostra seu lado “humano” não me traz mais paz.

 

 

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